Nutrição e as Farinhas de Trigo.

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“O trigo é uma das mais antigas e mais amplamente cultivadas de todas as culturas agrícolas”, é o que registram Orth e Shellenberger, no famoso livro “Wheat – Chemistry and Technology”, editado por Pomeranz. Numa tradução livre, o texto ainda informa que “É aceito que o trigo foi cultivado como cultura alimentar cerca de 10.000-8.000 A.C.”. Segundo os autores, que representam a mais forte corrente histórico-científica, por muito tempo o homem alimentou-se quase que inteiramente de carne de caça.

Quando o Homo sapiens, além de caçador, passou a ser coletor de vegetais, ampliou suas fontes alimentares. O subsequente domínio do cultivo de grãos fora primordial para o início da civilização (Pomeranz, 1988). Não é absurdo dizer que o trigo alimentou e nutriu o homem pré-histórico, ajudando-o a fixar-se à terra e desenvolver-se, é trivial entender porque o trigo transformou-se no mais importante dos cereais: tem inigualável capacidade de formação de massa, é fonte de energia e de nutrientes como proteínas, vitaminas e minerais. É uma das fontes de proteínas de mais baixo custo, compostas em 1/3 por aminoácidos essenciais. Massas, pães, biscoitos e bolos existem em virtude do trigo. São alimentos presentes na cultura alimentar de quase todos os povos, porque, numa dieta equilibrada, dão satisfação sensorial e aportam saudabilidade e nutrição. Há alguns anos o grão integral possui alegação funcional reconhecida pelas autoridades norte-americanas, e as farinhas, mesmo baixas extrações, podem ser instrumentos da nutrição, pela adição de vitaminas e minerais, no que se convencionou chamar de Fortificação Alimentos.

Fortificação de Farinhas

No início da década de 1920, a introdução de iodo no sal de cozinha nos Estados Unidos, transformou-se num marco da fortificação (Cannon, 2006), cuja regulamentação iniciou-se há mais de 50 anos, melhorando o aporte nutricional à população (Backstrand,2002). Desde então, as farinhas de trigo foram eleitas como importante vetor de nutrição em virtude da regularidade de seu consumo, estabilidade, facilidade de incorporação e homogeneização de micronutrientes. Já em 1941, farinhas de trigo passaram a ser fortificadas com vitaminas do complexo B (Cannon, 2006), reduzindo, severamente, problemas de má formação do tubo neural durante a gestação. No Brasil, a fortificação de farinhas de trigo (e milho) foi regulamentada em 2002, através da RDC 344, que determina a adição de 4,2 mg de ferro e 150 g de ácido fólico (vitamina B9) por 100g de farinha. A deficiência de ferro pode causar danos irreparáveis no desenvolvimento do organismo e na função cognitiva durante a infância. O ácido fólico é necessário para a síntese de DNA e RNA, e sua escassez pode ocasionar má formação fetal e comprometer formação de glóbulos vermelhos em crianças e adultos. Uma década depois, avanços podem ser mensurados, mas equívocos, detectados já na implantação da lei, deveriam ser corrigidos com:
A) aumento do consumo de derivados de trigo;
B) aplicação de melhores fontes de ferro;
C) melhor composição da fortificação.

Se López-Camelo (2010), registra minimização da anencefalia no Brasil, outros estudos, como o de Vieira e Ferreira (Revista de Nutrição, 2010), citam a gravidade da anemia no nosso país. No controle da má formação do tubo neural (espinha bífida), Canadá, Costa Rica, Chile e Argentina têm melhores resultados que os nossos. Um dado histórico talvez ajude nossa reflexão: o brasileiro tem consumo per capita de trigo muito menor que o do Canadá, do Chile, da Argentina, dos EUA e da EU. São 60kg de trigo/habitante/ano, contra consumos nunca menores que 90kg/habitante/ano (Fapri, 2006). Incentivar o aumento do consumo de derivados do trigo parece ser conditio sine qua non a melhoria dos resultados da fortificação. Incentivos à aplicação fontes de ferro com melhor biodisponibilidade (não susceptíveis ao eletromagnetismo) também parecem ser meios para a melhoria dos resultados do programa. Além disso, é importante se ter ciência do ciclo metabólico do ferro, para o qual é imperativa a ação de outros nutrientes, como a vitamina A, que poderia elevar sua absorção em pelo menos 34% (García-Casal, 2009). A fortificação de farinhas de trigo poderia estender seus benefícios na prevenção de enfermidades e na minimização dos custos com saúde pública. Para isso seria necessário um somatório de ações, que viabilizassem o incremento de consumo dos alimentos derivados do trigo, a aplicação de melhores fontes de ferro e a disponibilização de uma fortificação robusta, derivando numa melhor ingestão de micronutrientes e abreviando o tempo para que fossem atingidos os objetivos do programa: “reservas” em saúde e capacidade cognitiva (banco de intelecto). E o velho ditado diz: é melhor prevenir que remediar.

Texto: Divanildo Carvalho Junior. Gerente de Tecnologia e Inovação – Granotec do Brasil.

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