A sedução das vitaminas.

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Entre as cápsulas para ganhar músculos, suplementos vitamínicos que prometem saúde e vitalidade, antioxidantes contra o envelhecimento, dietas de eliminar esse ou aquele alimento e tantas outras ilusões, o problema é ainda mais grave. As empresas não têm a obrigação de comprovar a eficácia e a segurança de nada. Colocam apelos irresistíveis nos rótulos, contratam uma celebridade e pumba! Se o consumidor se der mal, azar o dele.

Isso não acontece só no Brasil. Metade dos americanos usa algum tipo de vitamina, suplemento alimentar ou qualquer outra forma de medicina alternativa. É uma indústria de US$ 34 bilhões por ano. Até a indústria farmacêutica tradicional (a Big Pharma) está entrando nesse mercado. Em 2012, a Pfizer comprou a Alacer Corporation, um dos maiores fabricantes de megavitaminas nos EUA.

Os novos produtos e as novas promessas da chamada medicina alternativa são anunciadas por celebridades e rapidamente viram febres de consumo. Geram livros, programas de TV, capas de revista. Num piscar de olhos e em milhares de “likes” de Facebook, ganham o mundo.

Muitos brasileiros conhecem e adoram celebridades da TV americana como os médicos Deepak Chopra, Mehmet Oz e Andrew Weil, três ícones da chamada “medicina alternativa”. Eles e tantos outros promovem técnicas, terapias, dietas e alimentos cujos benefícios para a saúde nunca foram comprovados segundo os melhores padrões de evidência científica.

Um dos maiores críticos do comportamento das celebridades em relação aos produtos de saúde e da falta de comprovação científica da medicina alternativa é Paul A. Offit, professor de pediatria da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Offit é um cientista premiado que, entre outras realizações, ajudou a desenvolver uma vacina contra o rotavírus, microorganismo que causa diarreia e mata 450 mil crianças no mundo a cada ano.

Offit é também um ótimo divulgador da ciência. Lançado em julho nos Estados Unidos e ainda sem editora no Brasil, seu novo livro (Do you believe in magic? The sense and nonsense and nonsense of alternative medicine) tenta explicar as razões da popularidade de vitaminas e outros produtos ditos “alternativos”.

Para Offit, a resposta é simples: os médicos são percebidos como pessoas autoritárias e pouco atenciosas que só sabem receitar remédios sintéticos com efeitos colaterais intoleráveis. A maioria de nós já sentiu isso, não é mesmo?

Enquanto os médicos provocam esse tipo de reação negativa, as pessoas que vendem práticas alternativas oferecem remédios naturais em vez dos artificiais, conforto em vez de distância e atenção individual em vez de “pegue uma senha e aguarde a vez de ser mal atendido”. É um apelo irresistível…

O resultado de muitas terapias convencionais é desapontador, mas isso não deveria ser razão para aceitarmos sem o menor senso crítico toda e qualquer prática alternativa. Toda terapia (convencional, alternativa ou qualquer outra) deveria ser submetida aos mesmos padrões de avaliação.

“Não existe medicina convencional, alternativa, complementar, integrativa ou holística. Existe medicina que funciona e medicina que não funciona”, diz Offit. A melhor forma de descobrir em qual das duas categorias um produto ou uma prática se enquadra é submetê-lo a estudos rigorosos e avaliar cuidadosamente as evidências científicas já publicadas sobre ele.

OK, ninguém espera que cada paciente entre numa base de dados científicos, leia os artigos com olho de lince e decida racionalmente se deve ou não acreditar na alegação de determinado produto. Offit fez esse trabalho e eu resumi os resultados para você, leitor querido.

Depois de reunir as evidências científicas disponíveis, ele chegou a uma conclusão assustadora: dos 51 mil suplementos vendidos nos EUA, apenas quatro tiveram benefícios inegavelmente demonstrados. São eles:

* ômega-3 reduz o risco de doenças cardiovasculares

* cálcio e vitamina D ajudam a prevenir osteoporose depois da menopausa

* acido fólico consumido na gravidez prevenir defeitos de desenvolvimento no feto

Por causa de uma lei de 1994, a agência que controla medicamentos e alimentos nos Estados Unidos (FDA) não pode exigir que vitaminas e suplementos sejam testados antes de serem vendidos. Às vezes eles são testados depois de chegarem ao mercado. Quem faz o trabalho é o National Center for Complementary and Alternative Medicine (NCCAM), um braço do instituto nacional de saúde do governo americano.

Se os pesquisadores financiados pelo NCCAM descobrem que os suplementos não funcionam ou fazem mal à saúde, eles publicam os resultados nos periódicos científicos. Não há recall. Não há mudança nos rótulos. Não há alerta da FDA. Se as pessoas não leem artigos científicos, elas não vão saber que as alegações das embalagens são falsas ou induzem a erro.

Desde 1999, quando foi criado, o NCCAM torrou US$ 1,6 bilhão estudando terapias alternativas. O resumo dos gastos e das conclusões:

US$ 374 mil para descobrir que inalar essência de limão e lavanda não cura feridas.

US$ 390 mil para descobrir que remédios usados ancestralmente na Índia não controlam o diabetes tipo 2.

US$ 446 mil para descobrir que colchões magnéticos não tratam artrite.

US$ 283 mil para descobrir que imãs não tratam enxaqueca.

US$ 406 mil para descobrir que lavagens intestinais com café não curam câncer de pâncreas.

US$ 1,8 milhão para provar que orações não curam aids, nem tumores cerebrais, nem tornam mais rápida a recuperação depois da cirurgia de reconstrução de mama.

Recentemente, o NCCAM abandonou o estudo dessas práticas e decidiu usar os recursos para avaliar os suplementos alimentares.

Fonte: http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/cristiane-segatto/noticia/2013/08/seducao-das-bvitaminasb.html

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