Farinhas enriquecidas com ferro e ácido fólico e a dieta vegetariana: esclarecendo o mito

Histórico

Em 2002 a Anvisa publicou a Consulta Pública número 51 prevendo a fortificação de farinhas de trigo e milho com ácido fólico, que teria por objetivo prevenir a má formação do tubo neural (estrutura precursora do cérebro e da medula espinhal) no feto.

Estudos demonstraram que 70% dos casos de defeitos do tubo neural podem ser evitados com a suplementação do ácido fólico. A vitamina é encontrada em vegetais verde-escuros, frutas cítricas e cereais, além de produtos animais como fígado e carnes em geral.

Além do ácido fólico, a proposta da Anvisa também especificava a adição de ferro à farinha com a finalidade de prevenir a anemia ferropriva, o que já havia sido proposto em outra Consulta pública no ano anterior. A justificativa é que, segundo o Ministério da Saúde, 45% das crianças de até cinco anos (cerca de 10 milhões de pessoas) tenham algum grau de anemia.

A Consulta Pública foi adiante e virou legislação. Hoje, todas as farinhas de trigo e milho, com exceção por limitações de processamento tecnológico de algumas formas dessas farinhas, são fortificadas com as substâncias. Para a indústria, o custo da fortificação da farinha é muito baixo.

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Boatos na comunidade vegetariana

A questão que passou a ser levantada pela comunidade vegetariana (em especial a vegana) pode ser sumarizada pelo seguinte trecho de uma mensagem recebida: “Fiquei sabendo da lei que aprovaram dos alimentos serem enriquecidos com ácido fólico e ferro, e isso é obtido da hemoglobina, pelo que sei. Se você puder me informar se tem marcas [de farinhas] que usam formas sintéticas de obter isso, agradeço.”

A partir desse tipo de mal-entendido, alguns indivíduos deixam de consumir qualquer alimento que tenha sido preparado com farinhas de trigo ou milho, mas na verdade essas farinhas não são fortificadas com compostos de origem animal.

Fatos e esclarecimentos

A Anvisa determinou que poderiam ser utilizados na fortificação os seguintes compostos: sulfato ferroso desidratado (seco); fumarato ferroso; ferro reduzido – 325 mesh Tyler; ferro eletrolítico – 325 mesh Tyler; EDTA de ferro e sódio (NaFeEDTA) e ferro bisglicina quelato. Outros compostos podem ser usados desde que atendam a no mínimo o mesmo nível de biodisponibilidade dos compostos acima citados.

Todos os compostos utilizados na fortificação são de origem química ou sintética. O ferro oriundo da hemoglobina (animal) chegou a ser considerado para a fortificação, mas foi desqualificado devido ao risco da presença de contaminantes. Também o custo do composto de origem mineral é inferior. Para chegar a essa conclusão, basta fazer uma reflexão sobre a logística que seria necessária para colher, transportar, armazenar, processar e controlar o sangue obtido de frigoríficos. Os compostos minerais são mais facilmente controlados e processados e por isso nenhuma indústria optou pelos compostos oriundos de produtos animais.

As exigências da legislação e as respostas das indústrias químicas são bastante claras e objetivas e não deixam dúvida. É possível afirmar com toda certeza que a fortificação de farinhas com ferro e ácido fólico não envolve no Brasil a utilização de produtos de origem animal.

Intervenções em saúde pública para vegetarianos e veganos

Enquanto os vegetarianos e especialmente os veganos poderiam beneficiar-se mais da fortificação de alimentos com a vitamina B12 ao invés do ácido fólico, há justificativas de saúde pública para a fortificação de farinhas com os compostos previstos nesta legislação, apesar da prática também ser passível de contestação.

A existência de questões como “todos devem ser submetidos à fortificação com ferro e ácido fólico quando muitos não necessitariam dessas substâncias adicionadas?” sempre será um dilema interminável em saúde pública, pois nessa área as intervenções nem sempre (ou raramente) beneficiam a todos. Alguns irão comemorar os benefícios da adição do mineral e da vitamina às farinhas, pois esses são de fato carentes em determinados estratos populacionais, enquanto outros irão argumentar que o consumo excessivo de ferro é nocivo aos que já têm ingestão e níveis normais do mineral, e assim por diante.

A intervenção correta seria uma pontuada, que oferecesse o nutriente carente especificamente às populações carentes no nutriente e apenas a essas. Mas isso é uma utopia no nosso modelo social atual. Os veganos, que se beneficiariam da fortificação de alimentos com a vitamina B12 poderão um dia comemorar a implementação de uma estratégia ampla nesse sentido, enquanto outros grupos poderão criticar a iniciativa. Aliás, a deficiência de vitamina B12 também tem uma importante correlação positiva com a incidência de má formação do tubo neural, motivo que justificou a fortificação com o ácido fólico, mas olvidou o papel conjunto da vitamina B12 pelo fato de essa estar presente em abundância nos produtos de origem animal e por isso não necessitava ser suplementada à população.

Vegetarianos e veganos podem ficar tranquilos com relação ao assunto da fortificação de farinhas com ferro e ácido fólico, uma vez que é claro que no Brasil o processo não envolve o uso de produtos animais.

Fonte: NutriVeg

6 respostas em “Farinhas enriquecidas com ferro e ácido fólico e a dieta vegetariana: esclarecendo o mito

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