Entrevista: a mentira do glúten. Parte 2

Continuando com a entrevista com Alan Levinovitz, sobre seu livro “A Mentira do Glúten”:

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 Sentir culpa em relação à comida pode fazer mal?

Levinovitz – Certamente. Uma das coisas tristes de ver nos Estados Unidos – e espero que isso não aconteça no Brasil, que você possam se salvar – é que as pessoas começaram a ter medo de comer. Penso na saúde de forma holística: é toda a sua vida, não só quanto você pesa, mas também sair com amigos, ser capaz de relaxar. O que vejo são pessoas que temem sair para comer com os amigos porque acham que não é seguro. Ou que se sentem culpadas depois. Ou saem de férias com a família e não conseguem comer suas comidas favoritas da infância porque acham que isso vai matá-las, fazer mal, engordar. Isso é tremendamente ruim pelo lado psicológico e pelo cultural. A menos que você precise se restringir dessa maneira, acho que devemos ser mais cuidadosos ao eliminar certas comidas para ver se dá certo.

A incerteza sobre o que nos faz mal causa ansiedade. Criar um vilão alimentar pode nos empoderar para nos sentirmos melhor? Isso funciona?

Acho que funciona, de maneira limitada. A vida é incerta, infelizmente. Às vezes não sabemos o que está nos fazendo mal e queremos uma resposta. Eleger um vilão alimentar, mesmo que não seja ele que esteja nos fazendo mal, pelo menos traz uma resposta. Você se sente seguro de que tem algo que pode fazer, e isso dá uma sensação melhor do que não saber o que fazer. Nesse sentido, criar um vilão alimentar pode ajudar com a certeza, mas traz outros efeitos colaterais.

Você acha que os benefícios de tirar o glúten da dieta são psicológicos?

Não. Quando digo isso, deve ficar muito claro que, para uma pequena parcela da população, os benefícios de eliminar o glúten são fisiológicos. Quem tem doença celíaca nunca deve comer glúten. Para muitas pessoas que têm sensibilidade ao glúten, outra porcentagem pequena, a melhora é realmente fisiológica. Mas estudos mostram, continuamente, que quando a maioria das pessoas que imaginam ter sensibilidade ao glúten ingere um placebo – algo que parece glúten, mas não é –, elas reagem do mesmo modo como acham que responderiam ao glúten. Então os benefícios que elas estão experimentando, na maioria das vezes, é psicológico. É um sentimento de empoderamento, de que estão fazendo a coisa certa, alimentando-se bem, e isso não tem nada de fisiológico.

Por que as pessoas estão fazendo tantos julgamentos morais sobre suas dietas?

Parte disso tem a ver com a história mais famosa de todas: a do Jardim do Éden. Éramos todos felizes, saudáveis e bons até comermos a comida errada. Daí tudo ficou ruim. Então nós associamos fortemente a comida à moralidade. Acho que muita gente acredita que comer de uma certa maneira, e não de outra, não tem a ver apenas com se sentir bem fisicamente, e sim com sua ética. Tudo bem se você for vegetariano por acreditar nos direitos dos animais. É algo maravilhoso. Mas não deveríamos confundir a moral com a saúde. Só porque você acredita que é melhor, moralmente, não comer animais, não significa que seja melhor para a saúde. Mas é difícil as pessoas separarem o que é melhor moralmente e o que é melhor para o corpo.

Por que é preciso ser cético quanto à demonização do glúten em livros como “Barriga de Trigo” e “A Dieta da Mente”?

Sou professor de religião, então quando comecei a pesquisa para o meu livro tive de falar com muitos médicos e cientistas. Na verdade, falei com os médicos e cientistas que conduziram os estudos que esses livros mencionam. No caso de “Barriga de Trigo” e “A Dieta da Mente”, esses médicos não estão fazendo estudos, estão escrevendo livros populares. Procurei os cientistas que fizeram essas pesquisas e eles me disseram várias vezes: “não é isso que estamos dizendo. Por favor, diga às pessoas que esses livros estão dando um falso testemunho do que estamos fazendo”. O médico mais famoso quando se fala de glúten, Dr. Alessio Fasano, de Harvard, disse recentemente que a situação está descontrolada. Ele disse que estavam fazendo um bom trabalho, ajudando pessoas a descobrir a verdade, a diagnosticá-las com a doença celíaca, a espalhar informação sobre a sensibilidade ao glúten, mas agora livros como esses dois estão fazendo as coisas sair do controle.

Você acha que seu livro pode fazer justiça ao glúten?

Espero que sim. O que realmente espero é que ele tenha o mesmo efeito que teve sobre mim: que liberte as pessoas da ansiedade com a comida, da preocupação com o glúten e com outros alimentos. E que nos torne mais humildes em relação ao nosso conhecimento em relação à comida. Que nos faça perceber que há muita coisa que não sabemos, e que não devemos tirar conclusões precipitadas.

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Fonte: Contém Informação

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