Lição sobre merenda escolar.

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Se me dissessem, há um ano, que eu participaria de uma conferência dedicada ao assunto ‘merenda escolar’, eu teria dado uma boa gargalhada. O mais próximo que eu cheguei de uma merenda, ultimamente, foi na classe executiva de voos de longa distância.

No início deste mês, participei de um encontro nacional sobre merenda escolar — e achei aquilo comovente e instigante.

Antes, aqui vai um pouco de contexto: nos Estados Unidos, as merendas escolares começaram a ser subsidiadas em 1946 como um programa de bem-estar social – mas esse foco era no bem-estar dos agricultores, não de crianças em idade escolar. O objetivo principal era ajudar os agricultores a se livrar de – digo, distribuir generosamente – seus excedentes de produção.

O programa foi gradualmente se transformando ao longo dos anos porque os alunos, seja por escolha ou necessidade, contavam cada vez mais com a merenda escolar como fonte de alimentação em vez de trazer seus próprios lanches de casa. O porcentual de crianças que se qualificam ao almoço escolar grátis ou a preço reduzido tem crescido – para 48% do total, ou, aproximadamente, 20 milhões – e a merenda escolar (cada vez mais, café da manhã e até o jantar) é agora uma parte significativa das dietas de muitas delas.

A nova legislação exige melhor nutrição, proíbe doces e bebidas açucaradas e a venda paralela de alternativas pouco saudáveis para o menu principal. Mas, as novas leis não especificam quão saudáveis devem essas merendas — e ainda se espera que os municípios financiem essa alimentação, exceto a parte composta por mercadorias excedentes. Uma coisa é promulgar a legislação. Mas, construir uma infraestrutura para implementá-la e, nesse caso, para oferecer uma refeição saudável por cerca de 1,50 dólar por criança, é outro assunto.

Na verdade, mudar a merenda escolar tem mais a ver com dinheiro e negócios do que com saúde e nutrição. (Os objetivo final é claro, o desafio é saber como alcançá-lo.) O encontro nacional chamado School Food FOCUS (Foco na Alimentação Escolar, em tradução livre) é um braço da organização sem fins lucrativos Public Health Solutions (Soluções para a Saúde Pública, em tradução livre). Eles convocaram seus membros – gestores de alimentação de 36 distritos escolares dos Estados Unidos, os quais servem mais de 4 milhões de crianças diariamente – e levou pesquisadores, organizações filantrópicas parceiras (principalmente os defensores de alimentos saudáveis) e fornecedores de alimentos. Com efeito, a FOCUS converteu os fornecedores em aliados – e patrocinadores. O encontro foi uma feira de negócios tanto quanto um evento para burocratas e filantropos.

Eu esperava ouvir sobre esforços de lobby e nutrição, mas aprendi, principalmente, sobre cadeias de suprimentos. A discussão foi focada principalmente em como os alimentos podem ser adquiridos, preparados e entregues dentro dos limites de preços, disponibilidades e instalações de cada escola do distrito (que determinam que tipo de comida pode ser preparada e servida).

O programa de merenda escolar é o maior mercado discreto para comida saudável de baixo custo. Mas a maioria dos fornecedores de alimentos prefere seguir as vontades de seus acionistas e vender comida mais cara, com maior margem de lucro, pouca importando se é saudável ou não. Por anos, eles queixaram-se que as crianças (e adultos) rejeitavam comida saudável em favor de alimentos menos saudáveis que tivessem melhor sabor. Agora, cada vez mais forçados a ir em direção de alimentos saudáveis pelos regulamentos do governo, os fornecedores escolares estão tentando descobrir como melhorar tanto a salubridade quanto o sabor — porque o governo exige que as escolas mensurem não somente o que é dado às crianças, mas o que eles escolhem (o que eles realmente comem e não jogam fora).

Pode-se argumentar que um governo não pode e não deve controlar o que as pessoas comem. Mas neste mercado único, é o governo que está pagando e os clientes são incapazes – pelo menos em termos jurídicos – de escolher o que é de seu próprio interesse. Isso cria um ambiente de teste ideal não só para fornecedores da escola, mas também para um mercado de alimentos mais amplo.

O desafio para os fornecedores é simples: fazer comida saudável, barata, que agrade aos consumidores mais mimados do mundo, ou seja, as crianças de escola primária. Para isso, a primeira pergunta a ser respondida é: o que faz da merenda escolar algo tão ruim?

Além do foco no preço e a necessidade de absorver os excedente de fazendas, a merenda reflete uma tendência mais aberta para transformar a preparação de alimentos em produção industrial. A homogeneidade é valorizada acima da qualidade, e a conveniência é avaliada mais que o frescor dos alimentos (e mais que o custo).

Cadeias de restaurantes como o McDonalds, por exemplo, têm transformado a agricultura ao redor do mundo com as suas necessidades de homogeneização de carne, pão, batata e afins, sob o pretexto que consistência é igual à qualidade. A variação no tamanho ou cor de, vamos dizer, tomates, chega a ser consideradas ruim (a menos que o chamemos pelo nome, como de tomate heirloom, e enfatizemos sua singularidade).

Nas escolas, alimentos pré-embalados são considerados melhores que comidas não-industrializadas, não só porque esse alimento pode ser oferecido novamente na terça-feira, se as crianças não quiserem comê-lo na segunda-feira, mas também porque são todos iguais.

Fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/economia